
Cá estamos.
E olha, o fio da internet, me parece que não foi o único que desapareceu. Eu ainda consigo ouvir o barulhinho da conexão, os fios e cabos todos ligados e a gente lá, de madrugada, esperando pra entrar na tal da internet.
Não estou dizendo que naquela época era melhor. Talvez não fosse. Também não acho que a tecnologia seja o problema. Às vezes, ela é. Mas talvez o mais complicado seja a forma como estamos tão despreparados para usá-la sem sermos usados por ela.
Enquanto aprendíamos a nos conectar com praticamente qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo, fomos perdendo intimidade com algumas conexões muito mais silenciosas: com nós mesmos, com a natureza, com a nossa própria história, com as pessoas ao nosso redor e, principalmente, com a vida que continua acontecendo enquanto estamos ocupados demais tentando dar conta dela.
Porque a gente continua vivendo. Trabalhando, respondendo mensagens, pagando boletos, fazendo planos, tentando organizar a casa, a cabeça e a vida. E, olhando de fora, parece até que está tudo funcionando.
Até que aparece aquela sensação difícil de explicar, como se alguma coisa estivesse fora do lugar. Como se existisse uma pequena distância entre quem a gente é e a vida que está vivendo.
Talvez seja porque faz tempo que a gente perdeu o fio e nem percebeu.
É aí que o meu trabalho começa.
Quando alguma coisa insiste em incomodar mesmo sem ter nome. Quando a vida fica pesada demais. Quando a gente já cansou de escorregar nas mesmas cascas de banana, pelo mesmo caminho, achando que dessa vez vai ser diferente, mas acaba chegando exatamente no mesmo lugar de sempre.
A Bruxaria Analógica, do jeito como eu a organizei, não existe para entregar respostas prontas ou dizer qual caminho você deve seguir. Ela existe para procurar esse fio novamente, reconhecer alguns nós, entender alguns emaranhados e, quem sabe, descobrir por onde ele passou antes de chegar até aqui.
Mas existe uma condição importante.
Eu não vou procurar esse fio sozinha.
Nem vou tecer por você.
Vou tecer com você.
Porque eu nunca acreditei muito nessa história de que uma bruxa salva alguém. Eu acredito numa bruxa que caminha ao lado das pessoas, que às vezes ilumina um pedaço do caminho, faz uma pergunta que ainda não tinha sido feita ou simplesmente permanece ali enquanto a outra pessoa encontra, com as próprias mãos, a ponta do fio que estava procurando.
Enquanto você encontra o seu fio, eu continuo tecendo o meu.
E talvez seja assim que as histórias realmente se encontrem: caminhando lado a lado, aprendendo uma com a outra e seguindo adiante, um pouco diferentes de quando começaram.